Querido Diário
Estou escrevendo para dizer que estou muito feliz porque ontem foi um daqueles dias raros de reconhecimento pelo trabalho que tenho feito com muita dedicação. Por outro lado estou triste porque não tenho com quem compartilhar a minha alegria. Acontece que moro em uma cidade em que não conheço quase ninguém, vivo para trabalhar e para minha família, marido e filho bebê, e nos finais de semana não me resta nada além de descansar ou me dedicar um pouco mais a eles. E, mesmo estando tão isolada aqui, eu gosto dessa cidade, creio eu que meu pesar é muito pouco pelos que deixei pra trás. Não me arrependo. Acho que os que ainda merecem minha atenção são os que tenho até hoje contato.
Já tive várias conquistas em minha vida. Todas aconteceram de forma muito lenta, porque o ritmo da minha vida parece ser acelerado demais. Eu não sou filha de família rica, nem de família eu sou, aliás, a família que eu tenho foi a que eu construí. Tudo o que eu tenho fui eu mesma que busquei. Não sou médica ou advogada, mas me formei com a segunda maior nota na monografia da minha turma, do mesmo jeito que entrei na faculdade com pontuação em segundo lugar do curso. Me formei com 21 anos. Não ganhei um carro quando me formei, muito menos quando passei no vestibular, mas acabei de comprar um com meu próprio suor e sacrifícios. E foram muitos! Não tive um casamento esplendoroso, até porque nunca me casei de verdade. Mas tenho tentado não deixar o meu amor morrer porque penso que se estamos juntos é pra dar certo. Meu filho nunca teve um quarto dos sonhos, sequer tive um parto decente. Mas ele é criado com amor, e tenho pensado muito nos últimos dias em como fazê-lo se sentir sempre bem, sempre querido; e apesar de não ter sido planejada sua vinda, isto ele é. Eu tenho trabalhado com comprometimento e seriedade, até porquê não consigo fazê-lo de outra forma. Tenho batido metas, encontrado possibilidades, enfim, tenho feito da maneira que eu acho correto. Apesar disso, nunca ganhei nada a mais por isso. Até ontem.
Ontem eu conheci a diretora nacional do segmento em que trabalho. Muito simpática por sinal, me elogiou várias vezes, falou sobre meu método de trabalho, meu talento para os negócios, meu comprometimento com a empresa. Fui amplamente reconhecida pelos 1500% de crescimento que proporcionei para a empresa nos últimos 6 meses. É a minha função. A empresa recebeu um notebook de presente pelo Primeiro Lugar na competição por vendas. Almocei com gente importante, fiz contatos profissionais que acredito que poderão, no futuro, me levar a algum sucesso. Conversei com o representante regional que trabalha nessa grande empresa há 35 anos. Ele me forneceu informações e ofereceu ajuda para qualquer tipo de negociação. Me senti honrada. Igualmente ele simpatizou comigo. Talvez tenha visto em mim o mesmo entusiasmo que tinha quando começou. E que conserva até hoje, diga-se de passagem. Tiramos fotografias, a empresa recebeu o certificado parabenizando pela conquista, recebemos o prêmio e nos despedimos dos personagens importantes que mudaram por um dia a nossa rotina.
Hoje eu sou uma empregada normal. Cheguei no trabalho sabendo que tenho uma meta a cumprir, que minhas contas pagas dependem do meu desempenho e que tudo o que eu faça aqui, por mais estraordinário que seja, é só o meu trabalho e a minha obrigação. Chego cedo, abro meu email e logo leio:
"Olá Barbara, são exatamente 22,50 hs e agora que acabei meu trabalho queria te dizer que fiquei muito feliz em lhe conhecer,tenho certeza que iremos fazer bons e grandes negócios juntos, disponha sempre que precisar, fique com Deus que ele te proteja sempre.
Um beijo em seu coração !!!"
Do representante regional da grande empresa. Quase um mito, que transforma trabalho em vida e não o contrário.
Era a inspiração que eu precisava. Já posso voltar a trabalhar. Aqui, sozinha em minha sala, colho os louros invisíveis do meu empenho, esperando que continuem as conquistas a meu favor.
É isso.