sábado, 23 de junho de 2007

"Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio.


Que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.


Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio.


Que a música que ouço ao longe seja linda,
ainda que tristeza.


Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada,
mesmo que distante.


Porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.


Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece
nem repetidas com fervor,

Apenas respeitadas como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.


Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.


Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço.


E que essa tensão que me corroe por dentro
seja um dia recompensada.


Porque metade de mim é o que penso
mas a outra metade é um vulcão.


Que o medo da solidão se afaste,
e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.


Que o espelho reflita em meu rosto
um doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância.


Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei...


Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.


E que o teu silêncio me fale cada vez mais.

Porque metade de mim é abrigo,
mas a outra metade é cansaço.


Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente
complicar
porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.


Porque metade de mim é a platéia
e a outra metade é canção.


E que minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor
e a outra metade...
Também. "

Oswaldo Montenegro