terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

sobre as couves

O barulho dos pingos da chuva me chamou até a janela. Eles batiam em algum tipo de telhado de metal, e por isso, pareciam uma cantoria natural.
Ali perto um cachorro tem seu almoço servido. O almoço dos cachorros sempre tarda, por isso eles sempre pensam estar jantando.
Atrás das árvores que tem suas folhas balançando, um varal cheio de roupas me incomoda. Estão tão molhadas que será impossível usa-las sem uma nova lavagem. Não consigo ser menos metódica neste ponto.
Em outro terreno há tijolos e areia molhada. Mais uma construção. Desde que se mudaram, essas pessoas constroem a casa pouco a pouco, primeiro por dentro, depois a garagem, depois a lavanderia, depois outro cômodo. Quando tudo estiver terminado, a parte por que se começou já estará velha, e será preciso fazer tudo outra vez. Por outro lado, se tudo ficasse pronto ao mesmo tempo, a casa teria de ser refeita, um dia, em sua totalidade. Para onde iriam as pessoas da casa quando a reforma se iniciasse?
Estou doente e não posso permanecer na janela, mas as folhas verdes prendem-me por minutos. Aquelas folhas que deixam, delicadamente, escorrer por sua superfície pequenos pingos de chuva, que parecem dançar pelos telhados, pelas calhas, pelas folhas, até chegarem ao solo. Algumas pessoas chamam as folhas verdes de drogas. Eu as chamo de couves. Drogas se referem a coisas que não são boas, e de jeito nenhum eu chamaria as folhas verdes assim. Mas nem todas as pessoas apreciam, como eu, as couves. E poucas pessoas apreciam o que não lhes faz bem. Porque, mesmo as pessoas que querem morrer, querem, de certo modo, viver. Os seres não estão preparados para reconhecer que certo dia chegará e os fará pó, insignificantes, e que com um sopro se espalhará e se desunirá para sempre. Para sempre ou até que o Universo se mova de maneira incomum, juntando suas migalhas que ao fim voltarão a constituir um amontoado de pó. Um corpo morto é apenas um corpo morto, relíquia de um corpo vivo. E as pessoas terão sua morte, como talvez pouco tenham tido sua vida. E se sobreviverem, será na memória de quem as esbarrou por aí. Será na lembrança que deixaram neste mundo, como uma pegada marcada no chão, que alguém, em sua pressa cotidiana, vê e se pergunta: “quem fez isso? Quem foi essa pessoa?” Mas que não voltará a ter sua história reconstituída, nem com milhões de fatos reunidos sobre sua vida. Os momentos que se escondem em algum lugar e banham um rosto com lágrimas e pesar, os momentos em que o que se tem é o silêncio e a ausência de linhas, estes nunca serão lembrados, nunca serão reconstituídos, mesmo que se estude, durante uma vida inteira sobre a miséria de uma alma.
Ah, sim, as couves. Ao olhá-las agora tento rastrear um caminho seguro para apanhá-las. Não estão sobre o território que eu vivo. Território, inclusive, que igualmente não me pertence. Penso em apanhá-las dessa forma porque não me encanta o modo simples de busca-las em um mercado, trocando-as por níquel. As couves para mim são mais do que isto. Elas valem uma aventura. Mas sei que o que penso é considerado errado, como sei que não o farei. Estes galhos enormes de folhas verdes me remetem a anos atrás. Era o tempo em que eu via o quintal de minha avó – o mais lindo e variado de todos – como um campo de realizações destinado a mim. E ali eu percorria cada metro, em busca da maior e mais perfeita folha de couve. (O ser humano ainda se importa muito com tamanho e beleza.) Quando a encontrava, ela se tornava única para mim. Comia-a com bastante vinagre e sal, pois mesmo as coisas melhores do mundo ficam perfeitas apenas com o toque de um tempero (mas minha coelha Danna comia couve sem sal). E eu comia aquela folha de couve enroladinha com água na boca – como agora – mastigando com dificuldade por causa do sal e da acidez. E não era o doce morango com açúcar que me fazia feliz.