quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007
O carnaval aquele ano tinha sido uma zona. ´Como todos os anos´, pode-se pensar. Mas, não, não houve durante a história doideira maior do que aquela, enquanto os velhos se afogavam na cachaça e se jogavam os descarados em cima de suas noras. Os mais novos, por sua vez, devidamente unidos pelos laços do matrimônio, deliciavam-se com as bundas de mulheres dez ou vinte anos mais novas que as suas digníssimas esposas. As esposas bebiam e fingiam se divertir com tantos olhares que seus peitos atraíam. Por isso seduziam quanto mais homens podiam, só para ver se o seu poder ainda estava em alta. Os filhos, crianças, adolescentes, estes viam aqueles dias como os dias da libertação. Bebiam, pulavam, destruíam e gritavam. Isto quando não liberavam seus instintos mais reprimidos e andavam com os pintos de fora. Dormir era pouco lembrado, mas se viam corpos caídos pelas ruas como se todos os mendigos de São Paulo se juntassem em uma só cidade pequena. Mesmo assim, não havia tragédia, após repor as energias, os foliões se levantavam e, antes mesmo de ingerir seu pó, davam uns animados pulos carnavalescos. A loucura foi total. Todos aqueles dias, o povo se viu liberado da grande culpa de ter nascido, e se divertiu quase até a morte. Mas a quarta-feira de cinzas chegou. As mesmas cinzas de que fênix renasce são colocadas na cabeça de todo fiel, exigindo, assim, um novo banho. Eis que estavam os carolas, fiéis de sempre dentro da igreja. Eles e mais alguns não tão fiéis assim, freqüntadores de assembléias natalinas, pascais e das quarta-feiras de cinzas. Talvez esse povo nem cresse tanto em tudo aquilo, mas tentados pela dúvida cruel, preferiam estar protegidos para a quaresma. As portas da igreja estavam abertas, e, pouco a pouco, foram se reunindo do lado de fora arrependimentos e culpas. As pessoas chegavam, atiravam aos pés da porta objetos de uso naquele carnaval e iam embora, julgando-se livres. Alguns ainda entravam e ficavam em algum canto, esperando a cerimônia e suportando centenas de olhares de reprovação. Depois de um tempo, acumulou-se nas portas da igreja, um grande número de vibradores, latas de cerveja, tubos de canetas ´bic´, chantillys e calcinhas com trombas de elefante. O público, atônito, foi esperando que aquilo se acabasse logo, mas o momento se prolongou por mais de meia hora. Por fim, um grupo de rapazes trazia um velho bêbado, acabado, que dizia não ter família. O safado tinha sido flagrado com todo o tipo de mulher, casada, feia, aleijada, gorda, peituda. Como se recusava a se curar do porre, deveria ficar ali, na quarta-feira de cinzas, com os restos do carnaval. Ao cair sentado na calçada, murmurou algumas palavras que só quem estava por perto conseguiu entender, mesmo estonteado pelo bafo. Ele dizia que queria se divertir, antes que os dias finais lhe viessem. O safado era o padre.